AS PESSOAS E SUAS VIDAS MODERNAS

 AS PESSOAS E SUAS VIDAS MODERNAS
Alguns meses atrás, nosso liquidificador, relativamente novo, apareceu com um barulho estranho e logo parou de funcionar. Tratava-se de um liquidificador simples, destes que servem apenas para fazer sucos e bater coisas mais leves, não era dos mais modernos, sofisticados, com inúmeras funções. Era um aparelho barato. Fui até uma oficina que conserta eletrodomésticos e o entreguei para o técnico fazer um orçamento. Poucos minutos mais tarde, o rapaz voltou e me deu o preço. Era pouca coisa menos que o valor de um novo, e ele me disse que era mais econômico jogar aquele fora e comprar um novo, pois além de peças originais, teria também a garantia.
De certa forma, o meu liquidificador é uma metáfora da vida moderna. Com o custo cada vez mais alto dos serviços, cresce entre os consumidores a tendência de comprar produtos novos ao invés de procurar consertar os que se estragam. O custo muitas vezes não compensa o preço do reparo – é mais barato e vantajoso adquirir um produto novo.
O tempo e o custo são os fatores que determinam a decisão. O tempo que perdemos levantando orçamentos, levando e buscando o produto na oficina, isto sem contar o tempo em que ficaremos privados do uso daquele bem – tudo isto, somado ao custo do conserto, que vem ficando cada vez mais caro, tornam os bens descartáveis. Freqüentemente tratamos as pessoas assim. O tempo e o custo são fatores determinantes em nossos relacionamentos modernos. Se elas têm problemas com depressão, dívidas, solidão ou carência, preferimos não correr o risco de nos envolver com elas. O tempo e o custo deste envolvimento pode não ser compensador. É assim que nossa mente moderna funciona. O problema é que quando dispensamos as pessoas por causa de suas feridas, acabamos ignorando também os dons que nascem das lacunas deixadas pela dor e sofrimento.
A rejeição nos impede de penetrar nos mistérios da vida humana e da graça de Deus. Nos impede também de gozar a alegria de servir a Cristo, servindo aos mais necessitados. Como disse o reverendo Eugene Peterson, a dor e o sofrimento não são problemas para serem resolvidos, mas mistérios para serem acolhidos. Ao acolher estes mistérios, provamos não apenas a bênção de servir, mas também a de restaurar a dignidade da vida.
Penso que foi isso que Jesus disse quando afirmou que não veio para “apagar a torcida que fumega” ou para “pisar na cana quebrada”. Seu ministério foi caracterizado por uma atenção constante ao fraco, ao oprimido, ao cansado. Ele não fica irritado ou impaciente quando uma “mulher pecadora” invade um recinto privado onde encontra-se jantando com um amigo, num destes momentos que nós não gostamos de ser interrompidos, principalmente por uma pessoa estranha, carente e inconveniente. Simão, o dono da casa, mostra-se impaciente e irritado com o gesto atrevido e impróprio daquela mulher. Jesus, no entanto, pacientemente permite que ela chore, derrame suas lágrimas sobre seus pés e os enxugue com seus cabelos.
Era uma mulher com problemas, muitos problemas, destas que nós, consumidores religiosos, descartamos. Seria mais fácil, e quem sabe mais útil, passar o tempo com outra pessoa, talvez mais inteligente, com a vida mais resolvida, menos carente, menos pecadora. Alguém que não tomasse muito do nosso precioso tempo, que não exigisse tanta atenção, que não fizesse tanto escândalo, que não comprometesse nossa reputação.
Mas são estas “mulheres pecadoras” que nos fazem ver o quanto Jesus se importa conosco, com pessoas como eu e você. Mesmo que nossas carências e inconveniências não sejam tão explícitas, ou nossas feridas sejam mais reservadas, sabemos que ele se importa conosco e, atenciosamente, ouve nossa queixa e enxuga nossa lágrima. São estas pessoas que Jesus não trocou por outras mais “novas”, mais saudáveis, menos confusas e doentes, mas que procurou acolher, amar, levantar e salvar, que fazem como o ilustre Nicodemos, mestre da lei, que procurasse o Mestre no meio da noite, às escondidas, porque sabia que também não seria rejeitado.
Sou grato por Jesus não ser tão seletivo como eu sou, por não descartar as pessoas como muitas vezes sou tentado a fazer. Sou grato porque é exatamente este gesto que faz com que eu, pecador como qualquer um destes mais descartados, sinta uma atração irresistível por Cristo, porque sei que ele não “pisará na cana quebrada” e nem “apagará a torcida que fumega”.
Esta descrição profética que Isaías faz do Messias apresenta uma das mais belas metáforas sobre o ministério de Cristo. Seu esforço para restaurar nunca atinge o limite. Não há lugar ou circunstância que seja longe ou complexa demais para ele. Não há ferida que seja feia demais para que ele não a toque com ternura e graça. Não há pecado, por mais grave que possa parecer, que seu amor não alcance com perdão e redenção. Jesus sempre estende a mão, nunca descarta. Ele jamais pisa, nem mesmo por distração, naquilo que encontra-se caído ou quebrado. É bom saber disto.
Mas nós somos cristãos modernos e uma das características de nossa modernidade é a capacidade de descartar e desprezar o inconveniente, de abandonar o que está estragado, optar pelo novo, rejeitar o reparo. Somos ocupados demais para dar atenção ao endividado, para ouvir as histórias do carente, acolher o choro do cansado e abatido. Somos instruídos demais, temos muitos diplomas e cursos para perder nosso precioso tempo com aqueles que nada poderão nos oferecer como compensação pelo nosso esforço. Precisamos resistir aos apelos do consumo, à pressa desumana, e abrir nossos olhos, estendendo as mãos para restaurar a cana quebrada e reacender a chama do pavio quase apagado. Cuidar destes extremos é zelar pelo Reino de Deus. A tarefa da Igreja, num mundo moderno e descartável, será a de dar valor a tudo aquilo que nossa mente moderna despreza, particularmente aos que, por sua enfermidade, deficiência, cansaço e sofrimento, sentem-se abandonados e solitários. É preciso manter a chama acesa, mesmo que haja apenas uma pequena fagulha na ponta do pavio.
extraídos da coluna “espiritualidade” da revista Eclésia, escritos pelo pastor Ricardo Barbosa de Souza – Pr. da Igreja Presbiteriana do Planalto em Brasília DF.

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Dinâmicas de Grupo é na Ida Gospe, Jesus é Deus e Senhor! l Pastor Júlio Fonseca

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