Alma Sobre o Nosso Espírito o Governo Usurpador

Alma Sobre o Nosso Espírito o Governo Usurpador

Escrito por: Silvio Dutra

Nós lemos em Hebreus 4.12:
“…a Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”.
Este texto fala de separação de alma e espírito pela Palavra de Deus.
Sabemos que o corpo, a alma e o espírito do homem formam uma grande unidade, e estão intimamente ligados, de modo que se pode dizer que são uma só coisa, assim como Deus é um, e no entanto são três pessoas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.
Por isso, quando o espírito deixa este mundo, o corpo morre; se o corpo morre, sai o espírito e volta para Deus.
Quando o corpo e alma descansam no sono, também descansa o espírito.
Todavia, há diferenças marcantes entre os três.
Mas nos concentraremos neste artigo somente na alma e no espírito, porque a Bíblia fala de separação de alma e espírito, e o que se quer afirmar é a distinção das funções que competem respectivamente ao espírito e à alma.
Com vistas a um melhor entendimento de tudo o que vai ser comentado, gostaríamos, antes, de explicar quais são as faculdades da alma, que não fazem parte do espírito humano.
Entre estas faculdades estão nossos sentimentos, nossa mente, nossa vontade, nossas emoções e pensamentos, até mesmo a nossa razão.
Alma tem a ver com o cérebro, de onde procedem todas estas faculdades referidas.
Cérebro tem a ver com o que é natural, e não sobrenatural, como é o caso do espírito, que nos veio de Deus, e que volta para Ele, na nossa morte.
De maneira que ao falar em separação de alma e espírito, pela Palavra de Deus, a Bíblia quer nos mostrar que precisamos ser governados pelo espírito, e não meramente por nossos sentimentos, vontade, emoções, pensamentos e até mesmo pela nossa própria razão.
Somente quando estamos santificados pelo Espírito Santo, mediante aplicação da Palavra de Deus em nossas vidas, a nossa alma entra automaticamente debaixo do governo do nosso espírito e passa a ser uma serva do espírito, ficando este portanto, livre das suas paixões irregulares e desordenadas que nos levam a pecar.
Portanto, não é possível ser espiritual, conforme é do propósito de Deus na criação do homem, sem que se tenha a habitação do Espírito Santo.
Entretanto, como o pecado continua operando na carne, há necessidade do trabalho da cruz para que sejamos as pessoas espirituais que Deus planejou desde antes da fundação do mundo.
Nós lemos em Gênesis 6.3 o seguinte:
“Então disse o Senhor: O meu Espírito não permanecerá para sempre no homem, porquanto ele é carnal, mas os seus dias serão cento e vinte anos.”
O que podemos deduzir desta passagem das Escrituras, senão que Deus não havia criado o homem para que ele vivesse pelo governo da sua alma natural?
A palavra “carnal” no texto de Gên 6.3 reporta à inclinação da natureza decaída no pecado, e não propriamente ao fato de o homem também possuir um corpo físico.
Deus é espírito, e criou o homem para ter comunhão com Ele em espírito, porque é somente este o modo possível de tal comunhão.
Por isso Jesus destacou que não se pode adorar a Deus a não ser apenas em espírito e em verdade.
O propósito de Deus na criação do homem é que este fosse espiritual e não carnal, conforme veremos neste nosso estudo.
E quando Deus diz que o homem se tornou carnal por causa do pecado é a isto que Ele quer principalmente se referir, porque não é governado pelo reino espiritual divino, mas pelo reino natural segundo a carne.
Por isso se impõe o trabalho da cruz sobre o ego carnal, para que o Espírito Santo possa assumir o pleno governo, conforme Deus havia planejado desde antes da criação do mundo.
Desde a Queda no Éden a alma deixou de estar em sujeição ao espírito e passou a assumir o governo do ser humano, tornando-se assim uma barreira para o conhecimento experimental da vida de Deus, que é espírito.
Se Cristo não estabelecer o Seu governo no nosso coração, o que haverá será o governo usurpador da alma contra a vontade de Deus.
E este governo da alma é designado na Bíblia como um viver segundo a carne. Segundo o homem natural e não segundo o homem espiritual.
Vale lembrar que a palavra constante de I Cor 2.14 para “natural”, quando Paulo diz que o homem natural não aceita as coisas do Espírito, tal palavra é no original grego psiquikós, que significa aquilo que é relativo à alma.
Quando o homem é governado pelas faculdades da alma, e não pelas faculdades do espírito, ele agirá segundo a natureza terrena,
Daí se afirmar que o homem natural, ou seja, aquele que é governado por um viver segundo a alma, e não segundo o espírito, não pode entender as coisas do Espírito Santo de Deus.
Os cristãos carnais a que Paulo se refere em I Cor 3.1 em contraposição aos espirituais, são designados no original grego pela palavra sarkikós, para carnais, e os espirituais, pela palavra pneumatikós, que se refere ao espírito.
O trabalho da alma no cristão carnal é fazê-lo viver pela sua própria vida natural e tentar trabalhar e servir a Deus pela sua própria habilidade natural.
Com isto, ele não chega a ter um conhecimento verdadeiro e progressivo de Deus, porque este conhecimento decorre de uma comunhão e de experiências reais com o Espírito Santo de Deus, em espírito.
A carne não pode ter tal comunhão e experiência com o Espírito Santo de Deus.
Por isso nosso Senhor Jesus Cristo afirmou que a carne para nada aproveita, e que o que tudo é gerado pela carne é carnal.
Nossos pensamentos, emoções, sentimentos e vontade, e razão, que são faculdades que emanam do nosso cérebro, devem ser submetidos ao governo do Espírito Santo de Deus, e por conseguinte do nosso próprio espírito.
E a Bíblia afirma que isto é operado pela Palavra de Deus, em Hb 4.12.
Chegará o dia em que não haverá mais esta dependência do cérebro, ou da alma, quando sairmos deste mundo pela morte, porque somente o espírito subirá à presença do Senhor, libertado completamente dos desejos e das paixões da alma.
Então o espírito terá vida e expressão independentemente do nosso cérebro.
E não há nenhum outro modo para subjugar o governo usurpador da alma, senão somente pela crucificação do ego pela nossa cruz, que deve ser carregada voluntária e diariamente.
Nos quatro Evangelhos, nós vemos que Jesus chamou os seus discípulos para renunciarem ao modo de viver pelo governo das suas almas, submetendo-o à morte na cruz, para que pudessem segui-lo.
O Senhor sabia que renunciar ao modo de viver pela alma é uma exigência absolutamente indispensável, para que os cristãos possam segui-lO.
Em Mt 10:38 e 39 o Senhor Jesus disse: “38 E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. 39 Quem achar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á.”.
Neste texto, a palavra para vida no original grego é psiquê, que significa alma.
Não se trata propriamente de se matar a alma, mas o modo de viver pela alma, para que se possa viver pelo espírito. É isto que Jesus quis dizer com suas palavras.
Este modo de viver pela alma somente pode ser morto pela cruz.
É por isso que em outras passagens do Evangelho, como em Lc 14.26,27 por exemplo, Jesus associou a perda da vida da alma ao ato voluntário de se carregar a cruz e de se auto negar, para poder segui-lo.
Estes versos nos chamam a perder o viver pela alma por causa do Senhor, entregando este viver à cruz, para que seja crucificado, e Ele ensinou que isto deve ser feito diariamente.
De acordo com nosso viver pela alma, nós fazemos a vontade daqueles a quem amamos, ainda que isto contrarie a vontade de Deus, por isso se impõe a morte deste viver pela alma.
Nada há de errado em demonstrar sentimentos e emoções, mas quando nossos sentimentos, emoções e vontade são irregulares e são a causa de não nos submetermos à Palavra e vontade de Deus, é porque estamos sendo pessoas carnais e não espirituais.
Quando Deus está em conflito com o desejo do homem, embora aquela pessoa seja a que nós mais amamos, importa antes amar mais a Deus.
Por isso nosso Senhor disse em Mt 10.37: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.”.
Em Lucas 14:26 e 27 está escrito: “26 Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo.”.
É proibido pelo Senhor que eu ame somente aqueles a quem eu amo naturalmente.
O próprio Jesus nos deixou este exemplo quando definiu a sua família como sendo a que é composta por aqueles que conhecem a Deus e fazem a Sua vontade.
O Senhor Jesus quer nos libertar deste tipo de domínio do afeto natural, de modo que possamos ser cheios do seu amor sobrenatural, que é um amor por todos os homens, e que não faz qualquer tipo de acepção de pessoas.
O afeto natural é muito importante, mas convém se dar um passo além e se amar com o amor ágape, sobrenatural de Deus.
O amor ágape nos vem do alto, e o amor filéo, de mera amizade, é terreno e inerente à nossa própria natureza.
Este amor ágape, que é o amor derramado pelo Espírito Santo nos nossos corações, é o amor de comunhão entre espíritos, que capacita a tudo sofrer, perdoar, suportar, e não ficarmos irados com as injustiças e ofensas que sofremos, de modo que é um amor que habilita a amar até mesmo inimigos.
A espada referida no texto de Hb 4.12 é uma alusão à que era usada pelo sumo sacerdote para dividir o holocausto em partes.
Esta espada representa a Palavra que é usada por Cristo através do trabalho do Espírito Santo para separar espírito e alma nos cristãos, de maneira que possam ser verdadeiramente espirituais.
A espada do Espírito é a Palavra de Deus. É portanto a palavra do evangelho de Cristo, que aplicada à mente e ao coração, traz à tona o viver na dimensão do que é espiritual e celestial, prevalecendo sobre tudo o que se refere ao homem exterior com suas cobiças e paixões.
Veja o que o apóstolo nos ensina sobre a luta que existe permanentemente entre a carne e o Espírito, e vice- versa:
“Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis.” (Gál 5.17).
Observe que ele afirma que a carne e o Espírito se opõem mutuamente para que não façamos o que seja do nosso querer.
O que ele quis dizer com isto?
É que na verdade tanto a carne quanto o Espírito lutam contra a lei natural da nossa mente, e contra as disposições da nossa alma. e, tanto um quanto o outro pretendem ter o domínio da nossa vontade e de todo o nosso ser.
A carne pretende nos levar a pecar ainda que não o queiramos; e o Espírito Santo pretende nos santificar e nos levar a viver não pelo que é propriamente da nossa vontade, mas por aquilo que é da vontade de Deus.
Então o Espírito não luta contra a carne para que seja feito o que seja do nosso querer, mas para que a vontade de Deus possa se cumprir em nós.
O Espírito procurará nos levar portanto à cruz para que a carne possa ser crucificada com as suas paixões e desejos (Gál 5.24).
Como estas paixões e desejos da carne operam principalmente na mente, então é fundamental que a mente seja renovada.
Uma mente renovada pelo Espírito coopera e muito para que tenhamos comunhão com Deus, porque ajudará o espírito nesta comunhão, porque a mente renovada pe guiada não pela carne, mas pelo Espírito Santo.
E o Espírito poderá então comunicar à nossa mente renovada o conhecimento da vontade de Deus revelada na Sua Palavra.
Para entendermos melhor a distinção entre alma e espírito, podemos nos valer de uma análise do que há no comportamento dos animais, porque sabidamente eles não são dotados de espírito como os homens, senão somente de corpo e alma.
Nós podemos, em certo grau, entender o que é relativo à nossa alma pelo que observamos no comportamento dos animais, porque tudo o que eles sentem se refere aos poderes da alma, porque como já dissemos, eles não possuem espírito.
Há afeto mútuo entre eles, em suas próprias espécies.
Então o nosso afeto natural pertence à alma animal, e não propriamente ao espírito, porque animais irracionais possuem isto evidentemente.
Especialmente quando os seus filhotes estão num estado dependente e precisam do seu cuidado, exibem um afeto por eles, muito forte como o que é visto em pais humanos.
Podemos acrescentar também, a tristeza que os animais sentem quando são privados dos seus filhotes; assim, podemos concluir que o amor paternal e filial como existe naturalmente no gênero humano, é um afeto, não da parte imortal ou espírito, mas da alma, como algo instintivo, tal como o instinto de sobrevivência que há tanto nos homens quanto nos animais.
Ninguém supõe que haja alguma bondade moral no afeto que os animais sentem pelas suas crias.
O afeto que os pais e filhos humanos sentem mutuamente parece ser da mesma natureza.
Nós não amamos nossos filhos naturalmente, porque Deus requer isto; nós não os amamos com o objetivo de agradá-los; nós não os amamos porque é um dever; nosso afeto por eles parece ser um mero instinto animal natural, que em si mesmo; nem é santo, nem pecaminoso.
Mas estes afetos, agora no homem caído no pecado, com toda a sua natureza corrompida, podem se tornar pecaminosos e conduzirem a outros pecados.
Por exemplo, fica pecaminoso quando nosso afeto por qualquer criatura é maior do que o amor com que amamos a Deus, porque Ele requer o primeiro lugar sobre os nossos afetos, e nos proíbe que prefiramos qualquer objeto ou pessoa a Ele.
Quando os pais se ocupam em adquirir riquezas e posições para seus filhos, geralmente eles negligenciam muitos dos deveres mais importantes que Deus lhes exige que executem.
Quando instruímos nossos filhos de tal maneira que eles dão mais preferência a seus corpos do que aos seus espíritos, nós estamos também dirigindo nossos afetos numa direção irregular e pecaminosa, e esta necessita ser santificada.
Por isso o apostolo Pedro fala em I Pe 1.18 de um resgate em Cristo de uma vã maneira de viver recebida deste afeto natural da parte de nossos pais.
Consequentemente é evidente, que o afeto da alma precisa ser santificado.
Se não for santificado, nós não podemos ser integralmente santos como o apóstolo fala em I Tes 5.23, que não apenas o espírito e o corpo devem ser santificados, como também a alma, ou seja, a alma deve fazer a vontade de Deus e não a sua própria vontade, ou seja do ego.
As Escrituras ensinam que sem santificação ninguém verá a Deus.
E não se deve confundir a santidade com temperamento amável, porque não há nada da natureza da santidade num temperamento naturalmente amável.
A santidade consiste em conformidade à lei de Deus, mas há pessoas que possuem o temperamento do qual estamos falando, que não têm nenhuma consideração pela lei de Deus.
Por isso Jesus não faz nenhuma distinção entre temperamentos quanto à necessidade comum de arrependimento, regeneração e santificação. Todos necessitam igualmente de tudo isto.
Também, uma correta moralidade, considerada isoladamente, não é nenhuma santificação.
Veja o homem religioso sem Cristo gabando-se de sua justiça própria tal como o fariseu da parábola que Jesus ensinou.
Há algo de comunhão verdadeira com Deus em sua vida?
Ele é movido pelo Espírito Santo?
A falta destas verdades essenciais indicam que a sua moralidade não é a santidade evangélica, que o homem alcança pela graça e mediante a fé e na união com Cristo, andando diariamente no Espírito, por se submeter voluntariamente ao trabalho da cruz.
Este assunto pode nos ajudar a entender a declaração de Cristo, de que “àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado” (Mt 13.12); pois vimos que toda coisa que parece ser naturalmente boa e amável nos pecadores como o afeto paternal e filial, compaixão, um temperamento amável, pertence à alma, porém isto morre com o corpo.
Nada sobreviverá à morte, a não ser o espírito porque é imortal.
Com a morte, isto que parecia se ter, será tirado, e com ela toda esta bondade natural será perdida, porque não teve a marca da santificação operada por Deus, sem a qual ninguém o verá, conforme afirma a Bíblia (Hebreus 12.14).
Somente a santidade que procede de Deus pode fazer com que esta bondade natural se torne permanente.
Assim, a divisão de alma e espírito, referida em Hb 4.12, não é para a morte, mas para a vida ressurrecta de Cristo, no poder do Espírito Santo, que é encontrada somente do outro lado da cruz, depois que passamos por ela.
Assim, sem cruz, não há a verdadeira vida abundante que Jesus veio nos dar.
Jesus disse que veio para dar vida e vida abundante. Esta vida é espiritual e eterna.
Deste modo, teremos mais desta vida, quanto mais mortificarmos o nosso velho homem.
Muito mais a vida da nova criatura em Cristo Jesus florescerá, no terreno em que a vida do velho homem for mais mortificada.
E é nesta condição de ter a alma e espírito separados pela Palavra de Deus, que o espírito é livrado dos embaraços e pesos da alma que assediam juntamente com o pecado tão de perto a vida dos cristãos.
E então a alma é levada a compartilhar deste deleite, em vez de se sentir facilmente tentada e atraída pelos prazeres que são oferecidos pelo mundo.
Tendo as faculdades amadurecidas para discernir tanto o bem quanto o mal, o homem espiritual pode discernir e vencer toda e qualquer movimentação do velho homem para produzir as obras da carne, bem como resistir às tentações da carne, do diabo e do mundo, por uma vigilância e oração constante e perseverante, em plena sujeição, dependência e obediência à vontade de Deus (Hb 5.14), por colocar a sua mente voluntariamente a serviço da nova natureza, recebida na conversão, e não a serviço do velho homem.

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