Profetices de ano-novo

Chega o fim do ano e a mesma história se repete.
Durante a “passagem de ano”, muitos vão às igrejas e cantam hinos, pedem perdão pelos pecados do ano que acaba e fazem promessas para o que se inicia. Celebra-se a “santa ceia” (embora a Bíblia ensine a ceia do Senhor” e não santa ceia”). Fazem-se batismos, elege-se a diretoria para o ano seguinte, à meia-noite o coral canta o “Aleluia de Haendel” e todo mundo vai para casa feliz da vida comer um peru, um chesterou um frango assado. Quem sabe tomar um vinho – “só um pouquinho” – e ir dormir bem tarde, com a barriga cheia, ouvindo o foguetório. Antes até dá uma olhadinha na TV – “rapidinho” – para ver as festas “do mundo”, as pessoas dando três pulinhos na praia e fazendo “oferendas” para Iemanjada, e pensar: “misericórdia, ainda bem que não sou como esse povo incrédulo”…
Mas de uns tempos para cá o ritual vem mudando. Grupos mais “modernos”, que seguem “novas visões” e “novas unções”, aboliram alguns costumes e adotaram outros, mais ao feitio pós-moderno, pós-denominacional.
Assim é que os corais e os hinos sumiram do roteiro; preferem-se músicas extraídas de shows de “levitas” variados, preferencialmente os da própria cepa. Eleição de diretoria também acabou, pois o “líder” governa sozinho. Depois de cantarem à exaustão, não raro por mais de uma hora, começa a pregação do ungido: curta, porque o povo já está cansado; e insossa, porque o povo não absorve nada mais profundo. E geralmente aos berros começa a sessão de profetadas genéricas, que servem para qualquer coisa. Principalmente iludir as multidões e manter a imagem do “líder” como iluminado, com acesso direto e exclusivo a Deus, intermediário entre a terra e o céu, o que traz a bênção.
E aí, ano após ano, vemos, lemos e ouvimos coisas como:
“Ano de vitórias, de restauração, de restituição, de conquista, ano de ser aclamado rei” (Estevam Hernandes, final de 2009). Em 2010, o teto de uma filial da Renascer caiu e matou nove pessoas. Mas ele não se abalou e no fim de 2010 veio com essa: “Este é o ano de Pedro: vamos andar sobre as águas. Faremos coisas inéditas… tudo o que ligarmos na Terra será ligado nos céus… ano de portas abertas, o melhor ano espiritual da sua vida; e nós viveremos toda sorte de curas em nossa família neste ano; Deus vai te dar um grande mover do Espírito Santo; vamos ver a glória de Deus. O Senhor vai nos levar ao seu monte para vermos Sua glória… o Senhor vai te restituir e abrir as portas para você… vamos pescar tesouros escondidos… Este será um ano de viver milagres pela fé”(Notícias Renascer).
Outro “profeta”, Rony Chávez, soltou em 2009 a sua “agenda profética”: “… 2010 será o estabelecimento de uma nova geração para substituir uma liderança ultrapassada, sem visão e permissiva. Serão levantados políticos jovens de grande visão nacional … trarão uma grande transformação as nossas nações”… (Dominionismo puro!) … “o Profético se elevará tremendamente… um fluir profético mais intenso, ativando dons e habilidades proféticas… novas dimensões do fluir do Espírito; experimentarão coisas que têm sonhado no relacionamento com Deus… prepare-se para viver momentos extraordinários do poder divino e seus milagres. Deus fará prosperar os seus empresários… aqueles que honram ao Senhor com seus dízimos, ofertas, e primícias” (Lógico, tinha que pedir dinheiro). “Surgirá uma geração jovem para ir tomando a direção de nossas sociedades… Um grande abalo trará mudanças inesperadas nos governos e governantes; principalmente em Israel, e Deus dará muitos sinais nos céus e na terra que anunciarão seu pronto retorno em glóriafluir profético mais intenso, ativando dons e habilidades proféticas… teremos uma inundação do rio profético de Deus. As águas subirão extraordinariamente… serão introduzidos a novas dimensões do fluir do Espírito… Deus fará prosperar aqueles que honram ao Senhor com seus dízimos, ofertas, e primícias” (dinheiro, de novo)… “tempo de posicionamento e autoridade”… blablabla…
Você viu em 2010, por acaso, algum abalo em Israel? Viu sinais no céu? Foi aclamado “rei”? Pescou algum “tesouro escondido”? Ou essas profetices são só para as igrejas deles? Algum político jovem de grande visão nacional trouxe grande transformação à nação?
Besteiras que servem para qualquer coisa, como horóscopo e mapa astral! É fácil fazer “previsões” genéricas! Confusão no Oriente Médio até menino de quinta série prevê. Surgimento de uma “nova geração” todo ano tem. Isto, para mim, é o mesmo das adivinhações de “pai” Ziriguidum do Baobá, “mãe” Fulaninha do Urubum, e “tio” Serafim do Balacobaco. É isso que os líderes modernos vêm fazendo, acariciando o ego de seus rebanhos. Em vez de alimentar ovelhas, preferem entreter os bodes (leia mais sobre isto aqui).
Proponho parar de dar espaço e crédito a espertalhões e aproveitadores da crendice alheia, firmando-nos única e exclusivamente na Palavra Infalível do Deus Infalível. Descartemos “apóstolos e profetas” que vivem declarando “ano de Pedro”, “ano de Josué”, “ano de Ezequiel” etc. A sorte deles é que ninguém se lembra de, no dia 31 de dezembro, ver se realmente o que foi proposto foi realizado, dentro das características do santo padroeiro profeta escolhido. Engraçado é que ninguém declara, por exemplo, Estêvão para “padroeiro do ano”: afinal, ele era um discípulo destacado, um dos primeiros diáconos, escolhido para servir… mas acabou sendo perseguido e morto pelas autoridades… não, esse não, ia queimar o filme. Ou podiam escolher Jeremias, profeta, corajoso… mas foi ridicularizado pelo seu próprio povo e depois jogado num poço… não, esse também não.  
Quem sabe Sansão? Foi um juiz de Israel – tinha autoridade! Separado desde o ventre da mãe – expressão das mais preferidas dos “profetas apostólicos” (ou seria “apóstolos proféticos”?). Derrotou os filisteus várias vezes… mas aí acabou atrapalhado por um “rabo de saia”… é, esse também ia gerar má imagem. Marketing, sabe como é… por isso ninguém ainda declarou ano profético de José, que era obediente a Deus, mas desapareceu da história de repente; ou de João Batista, que pregava arrependimento, falava contra o governo corrupto e as autoridades religiosas, mas queria diminuir para Jesus aparecer, e acabou decapitado. Ou de Zaqueu, que devolveu quatro vezes mais o que tinha roubado e deu metade de seus bens aos pobres… Não, esses personagens não interessam. São antiquados, como os corais e os hinos.
Aliás, se tornou comum a circulação de imagens como esta aqui ao lado, com textos que parecem extraídos dessas pregações de ano-novo. Mensagens de auto-ajuda evangélica, simpatias para “mentalizar que tudo vai dar certo”. Não que quem as envie tenha má intenção, pelo contrário; mas eu penso que isso é repercutir o que se ouve nos púlpitos hoje em dia, como “vira para o seu irmão e profetiza assim: blábláblá”. Melhor seria se essas mensagens tivessem conteúdo bíblico, como: “No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”(João 15:33), ou “Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos, e alegremo-nos nele” (Salmo 118:24), que são ensinamentos genuinamente bíblicos. Ao invés desses “mantras contra o mau-olhado”. Temos inimigos? Sim, mas a vitória que Jesus nos promete não é pra exibir, ainda mais “aos inimigos”.
É raro ver uma exortação como as dos profetas bíblicos, de Moisés a João Batista. Fora alguns poucos como Paul Washer, John Piper, Tim Conway e David Wilkerson (que já faleceu, mas tem vários vídeos no Youtube), é raro ver alguém dizendo às pessoas que se não se arrependerem “de maneira alguma entrarão no reino dos céus”. “Arrependei-vos e convertei-vos”, aliás, é uma expressão que, como os hinos de antigamente, parece ter sido abolida dos “cultos da virada”. É raro testemunhar um convite para as pessoas entregarem suas vidas a Jesus, como é raro ouvir sobre a volta iminente do Senhor. Parece que não querem que Jesus volte logo: primeiro precisamos “ter vitória”, ser prósperos, triunfar aqui na terra.
Desafio você a fazer um apanhado desse imenso besteirol, e daqui a um ano ver se as profetices se cumpriram, à luz de Deuteronômio 18:22:  “Quando o profeta falar em nome do Senhor e tal palavra não se cumprir, nem suceder assim, esta é a palavra que o Senhor não falou; com presunção a falou o profeta; não o temerás”. Quem gosta tanto do Velho Testamento, a ponto de adotar dízimos, ofertas alçadas, sacerdotes, patriarcas, unções, levitas, arca da aliança, shofar, menorah, dança de Miriã e de Davi, deveria obedecer Levítico 20:27 e 24:14. Ver se o profeta é fiel ou se deve ser levado para fora do arraial e apedrejado.
Esperemos, sinceramente, que o “ano novo”, seja o “ano de Jesus”: o ano em que o Senhor virá para nos resgatar nos ares, de acordo com I Tessalonicenses 4:17. Que 2013 seja o tempo que o Noivo vem buscar Sua Noiva para as Bodas. Não precisamos de profetadas genéricas de “réveillon”, vindas de homens e mulheres carnais. Nosso “culto da virada” acontecerá nas nuvens. Aí sim teremos uma grande festa, sem chester ou frango assado. Essa festa já sendo preparada, supervisionada pelo Noivo (João 14:3; 16: 16-22). Para saber disso precisamos apenas da Palavra de Deus, que nos promete – e cumprirá – uma eternidade de bem-aventurança ao lado do Senhor Jesus Cristo. 

Profetices de ano-novo

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