O dinheiro como instrumento de Deus na doutrina reformada

O dinheiro como instrumento de Deus na doutrina reformada

Os bens econômicos, as riquezas
materiais são, na doutrina reformada, valores diretamente ligados à fé cristã e
Intimamente associados com a vida espiritual. Como cristão que se baseia
estritamente no Evangelho, Calvino ignora o antagonismo pagão entre pretendidos
valores es­pirituais e realidades materiais. Repudia essa luta milenar que,
desde a Antiguidade, lança o espiritualismo contra o materialismo (luta que,
aliás, tornou-se novamente aguda em nossos dias sob o efeito das ideologias
ocidentais e comunistas).
Referindo-se à Escritura, o
reformador ensina que os bens materiais são os instrumentos da providência de
Deus. O dinheiro, enquanto
representa esses bens, é o meio do qual Deus se serve para proporcionar ao
homem o que é necessário para o sustento de sua existência e da de seus
companheiros.
A riqueza é colocada à disposição do ho­mem para que organize
sua vida e a da sociedade da qual é solidariamente responsável.
Além disso, através dos bens
materiais e, em particular, do dinheiro que dispensa a sua criatura, o Criador
se faz conhecer como Pai benfeitor. O dinheiro não tem, pois, somente função
utilitária. Tem também missão espiritual: é um sinal da graça do Deus que
sustenta a vida de seus filhos. Ainda mais, o dinheiro é um sinal do Reino de Deus;
sinal da abundância do mundo que virá, assim como as riquezas da terra
prometida eram para Israel uma pre­figuração da opulência da vida futura, Assim
sendo, o dinheiro é um sinal de duplo sentido: sinal de graça para aquele
que, pela fé, reconhece que tudo lhe vem de Deus, e sinal de condenação para
aquele que recebe os bens dos quais vive sem discernir que são dádiva de Deus.
Por essa razão, o dinheiro sempre põe o homem à prova.
Mediante a penúria Deus prova alguns para ver se, na pobreza, põem sua confiança
nele.
Até onde eles real­mente esperam de sua fiel providência o necessário
para o sustento de sua vida (subentendido, é claro, mediante a obediência no
trabalho), e até onde eles pensam que, em última análise, seu esforço pessoal é
que Ihes garantirá a vida?
Mas também pela abundância, pela
prosperidade ou pelo simples bem-estar, Deus põe à prova outros a fim de medir
sua fé. Os ricos ou os que estão bem põem real­mente sua confiança ainda em
Deus? Ou será que o di­nheiro os seduziu a ponto de acreditarem que dispõem
agora de um poder independente de Deus? A resposta a essa questão está no uso
que fazem da riqueza que Deus concede. A maneira de empregar o nosso
dinheiro traduz aos olhos de Deus, com exatidão matemática, nossa fé real,
muito mais do que nossas belas palavras ou nossos piedosos sentimentos.
Não há pois, na escala de valores
de Deus, nenhuma correspondência entre o valor espiritual e moral de um ho­mem
e sua riqueza ou pobreza. O juízo de Deus nada tem em comum com o da moral
burguesa.
O que vimos de dizer pode levar a
crer que o Evange­lho justifica pura e simplesmente a apropriação individual do
dinheiro e dos bens econômicos, recebendo uns mais e outros menos pela só
dispensação arbitrária da providência de Deus. No entanto, não é assim que as
coisas se apresentam. Já dissemos anteriormente que o homem não é, no
desígnio de Deus, um indivíduo isolado, mas sim uma pessoa cujo desenvolvimento
harmonioso está estrei­tamente ligado ao da sociedade; ele é um ser social,
intei­ramente solidário com os outros homens. Essa solidarie­dade se exprime,
como também indicamos, de modo par­ticular e concreto no intercâmbio mútuo de
bens e de serviços.
No desígnio de Deus, portanto, a
repartição desigual de riquezas entre os homens não visa a favorecer
arbitrariamente uns em prejuízo de outros. Essa desigualdade, ao contrário, tem
por função provocar a contínua redistri­buição dos bens no sentido dos mais
ricos para os mais pobres. A vida social, segundo a vontade de Deus, é uma
ininterrupta circulação de bens a exprimir concretamente a natureza
complementar dos homens entre si e sua neces­sária solidariedade. Tal
circulação é assegurada de modo natural pelas trocas econômicas, tornadas
necessárias pela divisão do trabalho, outra expressão da solidariedade hu­mana
da qual falaremos mais adiante.
Há, porém, no desígnio de Deus,
ainda outro motor de circulação de riquezas: é o amor, capaz de provocar a
doação desinteressada de bens que o rico faz ao pobre. Na perspectiva
evangélica, é rico aquele que se encontra numa situação privilegiada em relação
ao próximo, qualquer que seja o volume de sua riqueza. Somos sempre ricos em
relação a alguém. O rico tem, portanto, uma missão eco­nômica providencial:
comunicar ao mais pobre parte de sua riqueza, de tal maneira que o pobre deixe
de ser pobre e ele mesmo deixe de ser rico. Por outro lado, o próprio pobre tem
também sua missão espiritual: ele é destinado a ser o próximo do rico,
aquele que da parte de Deus enseja ao rico desfazer-se de seus bens e de
se libertar assim da servidão ao dinheiro.
Na sociedade humana ordenada
segundo os propósitos de Deus há, pois, uma comunicação mútua de bens
que, sem obviamente suprimir de todo as desigualdades, atenua-­as
consideravelmente. Se nada entravasse essa livre circulação de riquezas, a
sociedade tenderia, por um con­tínuo movimento de reciprocidade decorrente da
solida­riedade humana, a uma igualdade econômica relativa, diferenciada segundo
a vocação real de cada um. Isso porque, como veremos a propósito do trabalho e
das hierar­quias legítimas, nem todos têm a mesma vocação.
Calvino insistiu muita nessa
comunicação mútua das riquezas no seio da sociedade, tomando como modelo a
redistribuição do maná entre as israelitas. Seu propósito era a igualdade
diferenciada segunda a qual, para retomar a expressão do apóstolo Paulo,
“o que muito colheu, não teve demais; e o que pouco, não teve falta”
(2 Co 8.15). Eis por que Calvino denomina os ricos “ministros dos
pobres”, ao passo que os pobres, enviados aos ricos da parte de Deus para
pôr à prova sua fé e sua caridade, são chamados “recebedores de
Deus”, “vigários de Cristo”, “procurado­res de Deus”.
Por conseguinte, Calvino
observa que no Evangelho furtar não é
somente o ato de arrebatar um bem que per­tence a outro. Furto é, antes de mais
nada, a recusa em dar ao próximo aquilo que lhe deve ser atribuído por amor, é
guardar para si aquilo que, segundo o direito de Deus e segundo a ordem da
caridade, deve reverter ao próximo.
 
Infelizmente, essa ordem divina
de amar sofre em nosso mundo graves perturbações. O mal faz suas devastações na
sociedade a tal ponto que a ordem dos bens econômicos é destruída. O dinheiro
perde a função que Deus lhe tinha atribuído. De instrumento da vontade de Deus
– que era o que é chamado a voltar a ser –, o dinheiro se transforma em
instrumento da dominação de Mamon.
Fonte: O Humanismo Social de
Calvino, André Biéler, capítulo 2.II
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